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A PEDRA E O JOIO

Jorge RizziniA PEDRA E O JOIO

Jorge Rizzini

A doutrina espírita tem sofrido agressões dentro do próprio movimento doutrinário, de que são exemplos o roustainguismo, o ramatisismo, o “espiritismo divinista” de Oswaldo Polidoro, as campanhas contra o aspecto religioso do espiritismo, a pretensa superação da obra de Allan Kardec e as ridículas mistificações psicográficas que proliferam em quantidade assombrosa de norte a sul do País.

A propósito escreveu Herculano Pires: “Urge que os espíritas sensatos e responsáveis tomem posição contra essa avalanche de absurdos, tenham a coragem e a franqueza de falar a verdade em defesa do espiritismo doa a quem doer”.

Essa atitude de defensor intransigente da integridade da doutrina espírita, o apóstolo de Kardec – já o dissemos – assumiu durante os quarenta e poucos anos em que atuou no movimento doutrinário nacional, pois além da cultura enciclopédica sobravam-lhe coragem, franqueza e amor pela nossa doutrina. E por compreender desde jovem que “a defesa da verdade está sempre acima dos melindres pessoais”, assumiu a defesa da obra de Chico Xavier em 1962 quando o Movimento Universitário Espírita de São Paulo e o Grupo Espírita Emmanuel, da cidade de Garça – grupo liderado por Rolando Ramaciotti, o qual editaria mais tarde livros de Chico Xavier – denunciaram Divaldo Pereira Franco de plagiar mensagens e copiar frases (particularmente, de Emmanuel) psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira e atribuí-las a outros espíritos através de sua “própria” mediunidade… As instituições acima já haviam enviado aos centros espíritas mais de trinta mil folhetos que confrontavam esses textos quando J. Herculano Pires, pela imprensa, entrou em ação. Chico Xavier, por determinação de Emmanuel, somente voltou a encontrar-se com o admirável orador baiano quinze anos após o escândalo.

Mais grave, talvez, que o episódio acima foi a publicação do livro A Teoria Corpuscular do Espírito, de autoria de Hernani Guimarães Andrade, amigo de Herculano Pires e frequentador de seu lar. Engenheiro e culto, estreava na literatura, mas nessa obra já se apresentava como “renovador” da doutrina espírita… Eis algumas afirmações suas:

O espiritismo ressente-se de falta de teorias que lhe facultem avanço seguro na estrada da pesquisa metódica de laboratório.”

Allan Kardec declarou em suas obras que o espiritismo abriria mão dos conceitos expostos a favor das conquistas da ciência oficial.”

A Ciência Espírita precisa progredir até mesmo, se necessário, à custa de reforma nos seus postulados.”

E mais: “Os adeptos da doutrina devem ter a coragem de voltar atrás se preciso; reformar conceitos velhos; sacudir o pó da suposição para descobrir a realidade soterrada; abrir mão do dogmatismo comodista e ignorante, que se aferra à forma e esquece o espírito”.

Afirmações ousadas do nosso confrade, que prometia outros volumes para complementar sua teoria… Herculano Pires respondeu ao amigo com uma série de artigos publicados em sua famosa coluna espírita dominical no Diário de São Paulo e, depois, enfeixou-os em um livro que recebeu o título de A Pedra e o Joio, em cujas páginas lê-se estes tópicos:

Se a teoria corpuscular fosse apresentada como doutrina à parte, sem nenhuma ligação com o espiritismo, pouco nos interessaria. Mas, tratando-se de uma nova tentativa de reforma doutrinária, somos obrigados a encará-la com a devida firmeza.”

E o mestre acrescenta:

… a teoria corpuscular do espírito representa um retrocesso. Reduz o espírito à matéria e condiciona o seu aparecimento e o seu desenvolvimento às influências materiais. Além disso, a teoria se apresenta como um arranjo sincrético, uma mistura de concepções diversas, às vezes até contraditórias. Falta-lhe orientação lógica. Empirismo filosófico, elementarismo psicológico, atomismo grego, monadismo leibniziano, misticismo hinduísta, espiritismo kardeciano e relativismo científico moderno, são misturados ao sabor das conveniências.”

E, referindo-se de um modo geral aos pretensos reformadores de Kardec, aos quais chamava de “novidadeiros”, acentuou:

A mania do cientificismo vem produzindo grandes estragos em nosso movimento espírita. Qualquer possuidor de diplomas de curso superior se julga capacitado a transformar-se em cientista do dia para a noite. E logo consegue uma turma de adeptos vaidosos, prontos a seguir o iluminado que lhes empresta um pouco do seu falso brilho. O desejo de elevar-se acima dos outros, conhecendo mais e sabendo mais, é praticamente incontrolável na maioria das pessoas. (…) Afrontam e amesquinham Kardec na vaidosa suposição de que o estão auxiliando, quando não o agridem abertamente, com o menosprezo à sua missão espiritual e a sua qualificação cultural. Não foram ainda capazes de encarar a missão de Kardec e a obra de Kardec sem pensar primeiro em si mesmos e nas suas supostas capacidades culturais ou supostas habilitações espirituais.”

A doutrina (escreveu Herculano Pires em carta endereçada ao jornalista Agnelo Morato em 8/7/1971) é o que de mais importante existe no mundo. Sua missão é divina – a do Consolador. As trevas lutam contra ela por todos os meios, servindo-se particularmente dos elementos que podem fascinar em nosso próprio movimento. Se não estivermos alertas e não soubermos discernir iremos de roldão. A massa espírita é ingênua, simplória, invigilante. Se nós que estamos nas primeiras linhas, não soubermos guardar-nos e repelir as manobras das trevas, terminaremos responsáveis pelo fracasso da doutrina. Seremos os novos Judas, inquietos e invigilantes como ele o foi.”

Cerca de quinze anos depois, relembrando sua intervenção no caso da teoria corpuscular, Herculano Pires abordou em um artigo a questão da crítica no espiritismo¹, do qual pinçamos à guisa de ilustração este trecho:

Sem crítica não há correção de erros, não há renovação de conceitos nem abertura de perspectivas para a evolução. Pode o espírita desprezar e condenar a crítica? Se o pode, como julgar a legitimidade ou não das comunicações mediúnicas, como poderá passar as mensagens pelo crivo da razão, segundo a recomendação de Kardec, como enfrentará as mistificações que hoje, mais do que nunca brotam e se propagam como tiririca no meio da seara? Como apreciará o que é bom e o que é mau, o que é certo e o que é errado? Quem renuncia a julgar (e, portanto a criticar) está condenado a viver no erro e a ajudar a divulgação da mentira contra a verdade. (…) Quando critiquei uma teoria esdrúxula que apareceu em São Paulo, sob a responsabilidade de um companheiro culto, muitos espíritas se escandalizaram. Mas hoje muitos dos escandalizados me dão a mão à palmatória. A falsa teoria não conseguiu manter-se em pé. A crítica serviu para abrir os olhos a muitas pessoas de boa vontade, mas desprovidas de senso crítico, que estavam se deixando fascinar pela novidade.”

 

 

¹Vide o jornal Mundo Espírita, edição de 30 de abril de 1974.

 

 

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